A questão da individualidade é um tema bastante complexo. As pessoas se diferem em personalidade, estilo de vida e comportamento. Nem todos aceitam determinadas regras ou imposições da mesma maneira. Costuma-se dizer que pessoas que repelem ou reagem negativamente a certas atitudes comuns ao coletivo são tidas como mal-humoradas e mal-educadas.
Fomos educados para viver em sociedade de maneira amigavelmente tolerável e harmoniosa. Porém, ocorrem determinadas situações que não se alinham com o nosso modo de pensar, ocasionando possíveis conflitos frente à espontaneidade das nossas reações. Espera-se sempre um comportamento padrão, mais ou menos do tipo “calar e consentir” para se evitar problemas de relacionamento.
A vida não é uma via de mão única e, se todos compreendessem que temos, sim, o direito de discordar quando algo entra em choque, alcançaríamos, talvez, maior amplitude nas relações a que somos submetidos. Mas, infelizmente, não é esse o pensamento da maioria, haja vista tantos cursos e palestras sobre Relacionamento Humano, pautados no tema da relevância como base para o “sucesso” do nosso convívio social.
Irritam-me pessoas que falam sem parar, que contam todas as suas mazelas diárias, que se sentem vítimas dos imprevistos, que invadem a vida dos outros com perguntas diretas, que enviam mensagens incentivadoras como se estivéssemos precisando de força externa para nos mantermos vivos, que elogiam os filhos sem parar como se fossem os únicos seres do planeta, que têm resposta para tudo e, principalmente, que se acham donas da verdade, não permitindo outras versões de pensamento.
Irritam-me pessoas que dão conselhos e esperam que tenhamos a conduta X para algo que só a nós diz respeito. Exigem que ajamos de acordo com a multidão: se todos gostam de verde, não temos o direito de nos vestirmos de amarelo e, se o fizermos, somos tidos como prepotentes, individualistas e polêmicos.
Irritam-me pessoas contraditórias e alcoviteiras, que dizem "fazer e acontecer" e, no frigir dos ovos, tomam o partido da massa. São esses, aliás, os indivíduos que menos merecem a nossa confiança, pois agirão de acordo com o andar da carruagem e não com o que esbravejam ao vento para quem quiser ouvir.
É por causa da nossa própria inoperância frente a esses indivíduos que temos que tolerar conversas inconvenientes, visões equivocadas e atitudes invasivas. A questão da individualidade deveria ser levada mais a sério pelas pessoas para que não houvesse tanta padronização nos comportamentos. Reagir ao que nos causa irritação nada tem a ver com mau-humor, egoísmo ou falta de educação. Se o relacionamento humano é uma faca de dois gumes, por que insistimos em utilizar sempre o mesmo lado?
Na verdade, o amor que procuramos é o amor romântico, aquele que nos completará em todos os sentidos. Idealizamos uma vida em conjunto pautada na fusão e não na aproximação de dois corpos. Queremos nos integrar a alguém de tal forma que as vontades sejam as mesmas, os pensamentos e a visão de mundo estejam em perfeita sintonia, como se individualidade não existisse. É claro que, com o passar do tempo, percebemos que isso tudo não passa de teoria. O amor vai perdendo, sim, um pouco do seu brilho frente às adversidades do dia-a-dia ainda que não perca a essência. Então, nessa hora, começamos a questionar sentimentos e atitudes tanto nossas quanto de quem está aonosso lado.
O amor possui várias caricaturas e pode ser confundido com outros sentimentos. Se necessito desesperadamente de alguém, isso não é amor, é carência; se me entrego de corpo e alma a essa pessoa, isso também não é amor; é paixão. E por termos, geralmente, uma visão egoísta nos relacionamentos, acabamos por nos decepcionar quando as expectativas (leia-se, desejos) que depositamos no outro não nos satisfazem em plenitude. Não temos exatamente uma preocupação com o ser amado, mas sim com o que ele pode nos proporcionar. Não temos a intenção de completá-lo, mas sim de nos sentirmos completos. Daí, o desencanto, o afastamento e a insegurança em relação ao que de fato sentimos pelo outro.
O nosso ideal de amor é unilateral; é preciso, portanto, ter sensibilidade para adequá-lo e fazê-lo perdurar no avançar dos dias com aquela pessoa que entendemos ser a que está mais próxima das nossas aspirações sentimentais. É aquela que nos compreende e quer ser compreendida; que não se coloca acima em exigências e tão pouco se doa; que consegue entender o significado real da palavra “compartilhar” e que, mais importante que tudo, está disposta a dividir todas as emoções, até as mais simples. Se o nosso amor não fosse tão idealizado, entenderíamos que a razão comunga com ele em todos os aspectos, muito mais do que os desvarios frenéticos que tanto buscamos em um relacionamento.
E para provar que o nosso amor é idealizado, ouça essa bela música do meu querido Frejat.